Quando a arte encontra o cuidado: uma experiência de escuta, corpo e sustentabilidade
Foi uma experiência muito especial.
Fui convidada pela psicóloga Eveline Freire, idealizadora da roda de conversa e fundadora do Instituto Recomeçando, para participar como voluntária de uma vivência com a comunidade.
A proposta aconteceu dentro das ações do Setembro Amarelo e nasceu com um desejo muito simples: criar um espaço para parar, sentir, escutar e olhar para nós mesmos e para o outro com mais cuidado.
Começamos pelo corpo.
Convidei as pessoas a perceberem o próprio corpo, a sentirem, a tocarem suas mãos, seus braços, seus ombros, respeitando cada limite e cada história. Depois, fomos ampliando esse olhar para o espaço e para as pessoas que estavam ali.
E então vieram algumas perguntas:
Foram perguntas que abriram espaço para muitas reflexões.
A conversa foi acontecendo de maneira muito natural. Falamos sobre nossas experiências, nossas habilidades, aquilo que sabemos fazer e também aquilo que gostaríamos de aprender.
E foi bonito perceber quantos saberes existem dentro de uma comunidade.
A arte também foi para a praça
Depois da vivência, tivemos a oportunidade de levar a exposição para a praça, aproximando a arte dos moradores.
Foi um momento muito sensível para mim.
A praça, que normalmente é apenas um lugar de passagem ou encontro, naquele momento virou também um espaço de arte, conversa e aproximação.
As pessoas chegavam, olhavam, perguntavam, conversavam. E eu percebi mais uma vez que a arte não precisa estar somente dentro de uma galeria ou de um espaço formal.
A arte pode estar na praça.
Pode estar no quiosque.
Pode estar nas mãos de uma pessoa que transforma um material que seria descartado em alguma coisa nova.
Pode estar numa conversa.
Pode estar no encontro entre pessoas.
E o que fica depois desse encontro?
Fica a vontade de continuar.
A partir dessa experiência, começamos a pensar em um projeto de continuidade para o Quiosque do Instituto Recomeçando, com duração de um ano.
A ideia é construir, junto com a comunidade, um espaço que una arte, cultura, sustentabilidade, convivência e empreendedorismo sustentável.
Queremos trabalhar com oficinas, reaproveitamento de materiais, artesanato, troca de saberes, valorização da cultura e identificação das habilidades de cada participante.
Mas, para mim, o mais importante é que esse espaço não seja apenas um lugar para produzir coisas.
Quero que seja um lugar para produzir encontros.
Um lugar onde alguém possa chegar trazendo um saber e sair levando outro.
Onde possamos criar com as mãos, mas também criar vínculos.
Onde o material que seria descartado possa ganhar uma nova vida — e onde nós também possamos perceber que sempre existe possibilidade de recomeçar.
Recomeçar também é criar
Essa experiência me fez pensar muito sobre o significado da palavra recomeço.
Recomeçar pode ser aprender uma nova técnica.
Pode ser descobrir uma habilidade que estava esquecida.
Pode ser conhecer alguém.
Pode ser transformar um objeto.
Pode ser ocupar um espaço de uma maneira diferente.
Pode ser simplesmente permitir-se estar presente.
É isso que desejo levar para a continuidade desse projeto: a compreensão de que arte, cuidado e sustentabilidade podem caminhar juntos.
A roda de conversa terminou, a exposição terminou, mas alguma coisa ficou.
Ficou uma semente.
E agora queremos cuidar dela.




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