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Disponível em: https://www.blucher.com.br/design-como-pratica-de-projeto_9788521206767. Acesso em: 14mar. 2026.
Por Lia Batista
A discrepância entre o discurso e a prática na vida cotidiana ainda é significativa; a meu ver, essa questão tem recebido pouca atenção no que se refere ao termo design. Para Bonsiepe (2012, p. 20), não há confluência entre “tecnologia, economia e cultura cotidiana, salvo em alguns casos da filosofia; aquilo que os alemães chamam de Lebenswelt (mundo da vida)”.
Refletindo sobre o conteúdo proposto, o autor aborda a relação entre esses elementos e o design. Nesse sentido, percebe-se que ainda falta um olhar mais cuidadoso quanto à perspectiva projetual do design para que ele seja realmente eficaz no desenvolvimento do mundo que nos cerca, tendo em vista que o design não se orienta em disciplinas universitárias para obter conhecimentos científicos
Assim, a função do design precisa ir além da estética. Ele deve estar ligado a outros conhecimentos, contextos e funcionalidades dos produtos, considerando aspectos culturais, sociais e comportamentais das pessoas. Desse modo, é fundamental que o design se preocupe com as relações entre objetos, cultura e sociedade, e não apenas com a representação visual dos produtos.
Viver em um mundo em que a representação visual muitas vezes significa apenas aumentar o capital financeiro é contraditório, pois a importância do design vai além da superficialidade. Sua função é projetar e transformar a vida cotidiana. Dessa forma, o autor defende que o design não deve ser apenas uma ferramenta de mercado; tecnologia, sociedade e vida cotidiana precisam manter relações interligadas e transformadoras para enfrentar crises sociais, ambientais e econômicas.
Enquanto a ciência busca conhecer e explicar o mundo, o design sustentável procura criar projetos e transformações que melhorem a vida das pessoas. Nesse contexto, ambas se complementam, pois os problemas complexos da vida cotidiana exigem colaboração interdisciplinar.
A popularização da palavra “design” na mídia, a partir da década de 1990, trouxe algumas consequências. Segundo Bonsiepe (2012, p. 20), “os designers refutaram este mal-entendido durante décadas”, pois houve certa banalização do termo, muitas vezes associado apenas ao luxo, a produtos supérfluos, caros e de boa aparência.
Essa visão de que o design é apenas algo acrescentado ao produto é distorcida, uma vez que as especificidades e funções do objeto são fundamentais para o processo de design.
Em relação à gestão empresarial do chamado design thinking, frequentemente apresentado como algo novo, o autor discorda dessa ideia. Ele argumenta que soluções criativas para problemas complexos sempre existiram, sendo o termo apenas um novo rótulo para práticas já conhecidas.
Diante das crises contemporâneas — climática, energética, ambiental e social - repensar o design torna-se fundamental. Projetar produtos que consumam menos energia ao longo de toda a cadeia produtiva, desde a fabricação até o pós-uso, é um dos desafios atuais.
Nesse contexto, o design deve reunir esforços colaborativos para encontrar soluções viáveis para esses problemas. Bonsiepe também critica o domínio da lógica de mercado, especialmente a centralidade do “branding e do marketing”. Segundo o autor, o design muitas vezes perde autonomia por questões sociopolíticas, “força onipresente e até esmagadora do mercado”, pois o valor simbólico das marcas acaba se impondo sobre o processo de projeto, levando, em alguns casos, à autopromoção em detrimento da qualidade do projeto.
Assim, o papel do design deve estar relacionado à inclusão social, à consideração dos impactos ambientais, ao consumo de energia e à organização da vida em sociedade. Em outras palavras, trata-se de assumir uma responsabilidade social.
Ao refletir sobre países emergentes, especialmente na América Latina, observa-se a fragilidade da identidade tecnológica e da autonomia econômica. A dependência de países industrializados para suprir demandas de matéria-prima “sem componente dinâmico, sem design” contribui para aprofundar desigualdades sociais. Nesse cenário, o autor destaca a importância do design para desenvolver “um modelo próprio menos intensivo no uso de recursos”, capaz de promover um crescimento mais sustentável.
Apesar de sua relevância, o design ainda recebeu pouca atenção, enquanto áreas como arte, cinema, ciências e literatura despertaram maior interesse acadêmico.
Diante disso, é necessário acreditar na possibilidade de construir um mundo melhor, pois essa visão orienta os projetos. Assim, o design ultrapassa a dimensão estética e mercadológica, assumindo também o papel de promover transformações sociais.
Este texto contou com apoio de inteligência artificial para revisão gramatical e organização textual.
REFERÊNCIA
BONSIEPE, Gui. Design como prática de projeto. Apresentações de Freddy van Camp e Darcy Ribeiro. São Paulo: Blucher, 2012.
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