Quando o tecido guarda mais memória que a paisagem
Por Lia Batista
Cartografia do Sono nasceu do encontro entre o íntimo e o passageiro.
Escrevo esta série a partir do que fica.
Cartografia do Sono nasceu quando recebi fronhas e lençóis usados de um hotel da orla de Fortaleza. Eram tecidos que já tinham tocado rostos e corpos em trânsito, pessoas que chegaram em busca de sol, descanso, mar e depois partiram.
Quando esses tecidos chegaram às minhas mãos, percebi que não eram neutros. Havia neles uma espécie de silêncio acumulado. Uma respiração antiga. Marcas invisíveis de noites mal dormidas, de sonhos leves, de cansaços profundos. Decidi que minha pintura não viria para apagar essas memórias, mas para conversar com elas.
A série é composta por 20 fronhas e dois lençóis que transformei em instalação. Trabalho cada peça como se fosse um momento único. Penso nas malas abertas sobre a cama, na ansiedade de quem está longe de casa, na entrega vulnerável do sono. Entre chegada e partida, o corpo descansa, mas nunca completamente.
Minha gestualidade nasce dessa tensão. Pinto como quem escuta. Como quem tenta mapear aquilo que não se vê: o peso do dia que ficou no travesseiro, o pensamento que atravessou a madrugada, o rastro que permanece mesmo depois da troca dos hóspedes.
Os alinhavos que surgem nas obras são gestos de cuidado. São tentativas de reparar algo que o tempo deixou. Costuras simbólicas que tocam feridas que não conheço, mas que sinto existir.
Ao levar essas fronhas para o espaço expositivo, transformo um objeto doméstico em território. Para mim, a fronha já sabe mais da cidade do que qualquer imagem turística. Ela testemunha o que é humano, frágil e transitório.
Cartografia do Sono é, no fundo, uma escuta. Uma tentativa de ler a cidade através do que ficou no tecido.
Disponível em: https://www.youtube.com/shorts/glXQSt9g-Yo. Acesso em: 03 mar. 2026.
















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